
A casa da mãe guarda versões nossas que nem sabíamos que ainda existiam
3 min de leitura
Ontem foi Dia das Mães.
E, nessa semana, especialmente ontem, eu me percebi olhando para esse dia não como mãe, mas como filha.
Porque existe algo nessa data que faz a gente voltar no tempo. Parece que o Dia das Mães desperta um lado muito específico dentro da gente. Um lado afetivo, infantil, quase como se por alguns instantes a vida adulta abrisse espaço para reencontrarmos memórias muito antigas.
E voltar para a casa da mãe depois de já ter filhos, depois de já estar vivendo a própria vida adulta, é uma experiência muito diferente. Especial até. Porque não é só visitar uma casa. É revisitar sentimentos.
Eu me peguei muitas vezes em silêncio, olhando ao redor, observando as paredes, pensando em como o tempo passou. Pensando em quantas mudanças aconteceram enquanto a vida corria e em quantas delas, na verdade, eu nem percebi acontecendo.
E eu fiquei muito reflexiva.
Quem já tem essa tendência de refletir acaba mergulhando ainda mais nessas coisas. Então eu me peguei diversas vezes simplesmente olhando, observando, tentando reconhecer aquele espaço que um dia foi completamente meu. Que era meu aconchego. Meu lar.
Mais do que casa, era meu lar.
E foi engraçado perceber isso, porque eu comecei a procurar vestígios da infância pela casa. Eu olhava as paredes tentando encontrar algum rabisco antigo que eu tenha feito quando criança e que talvez tenha até gerado briga com irmãos naquela época. Eu abria guarda-roupas. Observava detalhes. Como se eu estivesse tentando reencontrar pedaços meus espalhados ali dentro.
Trechos de uma história que foi muito feliz.
Mas que também foi dolorosa em alguns momentos, como toda vida é.
Porque voltar para aquele ambiente também me fez lembrar de fases difíceis. Principalmente da adolescência. Eu me lembrava de quantas vezes chorei ali naquele quarto, naquela cama, sem entender direito a vida, sem entender meus sentimentos, sem querer crescer tão rápido.
Eu lembrava do início da vida adulta, do início do trabalho, daquela sensação de não querer todas aquelas responsabilidades, mas ao mesmo tempo entender que não existia muita escolha. Era parte da vida. Parte de amadurecer.
Então foi quase como reviver várias versões minhas dentro da mesma casa.
E uma coisa que me marcou muito foi perceber como a casa da mãe muda com o tempo.
Os móveis mudam.
As paredes mudam.
Os hábitos mudam.
Minha mãe, por exemplo, sempre fazia café. O café ficava pronto na garrafa. Existia aquele ritual. E hoje já não existe mais da mesma forma.
São pequenas coisas, mas que mostram o quanto o tempo passou sem a gente perceber.
E o que mais me pegou foi o silêncio.
Porque hoje eu vivo a fase oposta. Minha casa está sempre cheia, com criança, brinquedo, barulho, correria. E olhar para a casa da minha mãe hoje, mais silenciosa, mais quieta, me fez pensar muito nela.
Me fez pensar em quantas vezes ela talvez tenha sentido falta da gente naquela casa grande.
Quantos momentos sozinha ela viveu sem nunca falar nada.
E isso me doeu.
Porque às vezes a gente cresce, constrói a própria família, segue a vida… mas demora para perceber que as mães também passam por um processo de despedida quando os filhos vão embora.
Ao mesmo tempo, eu também pensei que talvez esse silêncio tenha trazido coisas boas pra ela. Talvez tenha sido a primeira vez na vida em que ela pôde ter tempo pra si mesma. Clareza. Descanso. Um momento dela com ela.
Então acho que tudo, de certa forma, acabou cooperando para o bem.
E talvez a parte mais difícil tenha sido ir embora.
Dar tchau.
Porque ir embora da casa da mãe nunca parece só uma despedida simples. É como se a gente estivesse fechando uma caixa de memórias sem saber quando vai abrir de novo.
E era um domingo frio, chuvoso. Aquele final de tarde com cara de despedida mesmo.
Dar as costas, entrar no carro e ir embora parecia, de alguma forma, deixar uma parte de mim ali outra vez.
Como se aquelas memórias continuassem naquela casa... até quando eu puder retornar.
Feliz Dia Das Mães <3
Por Geovana Constantino