
Do outro lado do medo existe você
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Existem travessias na vida que já são difíceis por si só. Mas, muitas vezes, elas se tornam ainda mais dolorosas não apenas pelo momento em si, e sim porque nós não queremos soltar. Não queremos avançar. Não queremos enxergar o novo.
E, às vezes, isso não acontece apenas por comodismo, repetição ou hábito. Acontece porque estamos tão apegados ao antigo padrão que já não conseguimos mais nos imaginar de forma diferente. Já não conseguimos nos reconhecer fora daquilo que nos acostumamos a ser.
Esses dias eu li um relato sobre uma pessoa que convivia há 16 anos com uma depressão intensa. Depois de tanto tempo, aquele sentimento já havia se tornado uma parte íntima dela. Era quase a única coisa com a qual ela sentia que podia contar. Independentemente do que acontecesse, a depressão estaria ali.
E então ela percebeu algo assustador: já não conseguia mais se imaginar sem aquele sentimento. Não conseguia visualizar quem seria sem aquela dor. E, por isso, se agarrava àquele padrão emocional por segurança.
É sobre esse medo que eu quero falar hoje: o medo do novo.
O medo é extremamente paradoxal. Ao mesmo tempo em que ele nos protege, nos alerta e nos precavê de riscos e possíveis dores, ele também pode nos aprisionar. Pode nos manter fixos em um determinado momento da vida, em um padrão, em um lugar, em uma versão limitada de nós mesmos.
E, a partir dele, outros sentimentos podem surgir: ansiedade excessiva, pânico, escuridão emocional, paralisação. Porque, muitas vezes, o medo não é apenas de sofrer. É o medo de avançar. O medo de pensar diferente. O medo de descobrir quem somos além daquilo que sempre fomos.
E talvez seja inevitável sentir isso no momento coletivo em que estamos vivendo. Mundialmente, emocionalmente, espiritualmente, socialmente… estamos sendo convidados ou até forçados a olhar para um novo horizonte.
Estamos sendo convidados a enxergar o mundo de uma forma diferente daquela que imaginávamos possível. A pensar em novas formas de viver, trabalhar, amar, acreditar e existir. E, às vezes, mudar apenas o ambiente já não basta. Porque o que está saturado não é apenas o lado de fora. É o padrão inteiro.
Não porque “o sistema” esteja pedindo isso. Mas porque muitas formas de vida já não sustentam mais a alma.
Explorar as profundezas do próprio ser tem sido um convite cada vez mais inevitável. Talvez antes isso parecesse distante, desconfortável ou até impossível. Mas agora começa a surgir como algo necessário. E, curiosamente, também mais criativo, mais sensível, mais verdadeiro.
A vida como ela vinha sendo copiada, repetida e reproduzida está perdendo seu formato original. E que bom.
Que bom que existe a possibilidade da mutação. Da mudança. De novas formas de pensar, sentir e viver.
Porque quando olhamos para fora, muitas vezes percebemos isso claramente: as mesmas informações, os mesmos padrões, os mesmos comportamentos sendo apenas replicados. E, inevitavelmente, isso também se transforma em um convite interno.
Porque quando tudo parece igual do lado de fora, talvez seja hora de perguntar:
Será que eu também não estou repetindo os mesmos padrões?
Os mesmos hábitos?
As mesmas dores?
As mesmas versões de mim?
E é doloroso olhar para dentro e perceber que sim. Que existem reformas necessárias. Mudanças iminentes. Partes nossas que precisam ser revisitadas.
As pessoas estão implorando por mudança, mesmo que inconscientemente. Mas, muitas vezes, esperamos que essa mudança venha de forma repentina, externa, coletiva, quase como um salvador surgindo para corrigir a humanidade de um dia para o outro.
E, claro, isso seria muito mais fácil. Muito menos doloroso.
Nós fomos ensinados a esperar alguém que venha nos salvar.
Mas só você pode salvar a si mesmo.
Só você pode sair do lugar onde está.
Só você pode realizar as reformas internas necessárias.
E tudo aquilo que é transformado dentro de você inevitavelmente impacta o lado de fora.
Cada ponto de luz que nasce dentro do seu próprio ser altera a realidade ao seu redor. E, sim, uma nova realidade pode ser criada a partir disso.
Mas esse convite ao mergulho interior também desperta medo. E tudo bem sentir medo.
Tudo bem ir com medo.
Porque coragem não é ausência de medo. Coragem é continuar apesar dele.
Nós estamos passando por inúmeras mutações internas. E, muitas vezes, aquilo que parece um impedimento para o novo é justamente o medo tentando nos manter presos ao conhecido. O mesmo medo que tenta nos proteger de se machucar é o medo que também impede você de viver aquilo que nunca viveu.
Por Geovana Constantino