O oceano da maternidade

O oceano da maternidade

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Hoje eu quero falar sobre a maternidade.

E, talvez, de todos os temas sobre os quais eu já escrevi com facilidade, esse seja um dos mais difíceis de colocar em palavras. Não porque me faltem sentimentos, mas justamente porque eles transbordam. A maternidade, para mim, é uma vivência tão profunda, tão transformadora, tão cheia de camadas, que não cabe inteira em um texto, não cabe em um livro, não cabe em uma explicação.

Ainda assim, eu quero tentar.

Quero trazer, com todo carinho, uma pequeníssima parte do que é, para mim, ser mãe.

A gente escuta muito aquela frase quase clichê de que, depois do nascimento de um filho, encontramos uma versão melhor de nós mesmas. E eu sei que, para quem ainda não viveu isso, pode até soar exagerado. Talvez eu mesma já tenha pensado assim um dia. Mas, para mim, o nascimento da minha primeira filha foi exatamente isso: um encontro mais verdadeiro com quem eu sempre quis ser.

Quando olho para minhas fotos do passado, eu sinto gratidão. Sinto orgulho da minha história, do que vivi, do que superei, da mulher que fui até aqui. Existe felicidade nessa lembrança. Mas hoje existe algo ainda mais profundo do que isso. Hoje eu me sinto mais inteira. Mais alinhada. Mais viva por dentro.

Foi como se algo em mim tivesse despertado. Como se uma parte adormecida, silenciosa, muito bonita, finalmente tivesse florescido.

E eu posso dizer, com verdade, que estou vivendo a minha melhor versão e a minha forma mais plena de felicidade.

Mas todo despertar também traz intensidade.

Minha filha veio me despertar e, como todo despertar verdadeiro, isso não foi simples.
Desde o nascimento dela, vivi momentos profundamente intensos. Houve dias em que permaneci em silêncio, como se algo estivesse sendo reorganizado dentro de mim e eu ainda não soubesse explicar. Mesmo cercada pela família, pelo meu esposo, pelo amor de quem estava ao meu redor, havia dentro de mim uma solidão difícil de nomear.

Hoje eu entendo que aquela solidão talvez fosse, na verdade, uma travessia.

Era como me despedir de uma versão antiga de mim. Uma versão que esteve comigo por tantos anos, por tanto tempo, por tantas fases da vida. E se despedir de quem fomos também exige coragem. Nem sempre é leve. Nem sempre é imediato. Nem sempre é claro.

Ao longo dessa jornada, eu me perdi algumas vezes.

Mas, quando me reencontrei, percebi que eu não estava apenas assumindo a maternidade. Eu estava assumindo uma nova forma de existir. Uma versão mais forte, mais madura, mais sensível, mais leve. E, de certo modo, também mais criança. Porque a maternidade, curiosamente, também nos devolve partes de nós que o tempo havia endurecido.

Depois, com o nascimento do meu segundo filho, uma nova camada dessa experiência se revelou para mim.

Se a minha primeira filha veio como esse grande despertar trazendo desordem interna, movimento e, depois, reorganização meu segundo filho chegou como serenidade. Ele veio me devolver a paciência que eu havia perdido no meio do caminho. Veio me devolver um tipo de calma, de presença e de liberdade de ser.

E ele também vem me ensinando todos os dias, assim como ela.

Hoje eu canto mais no chuveiro. Eu dou mais risada. Eu gargalho mais com os meus filhos e com o meu esposo. A nossa casa ficou mais viva. Nós nos tornamos mais felizes.

E eu acredito que isso aconteceu porque, em vez de resistir, nós aceitamos o chamado da vida.
Na leveza de voltar a brincar com terra, de ir a parques, de subir em balanços, de entrar em pula-pulas, de olhar o mundo com mais encanto outra vez.

Talvez, sem os filhos, muita coisa disso ficasse para trás. Talvez a vida adulta, sozinha, fosse endurecendo pequenas partes nossas sem que a gente percebesse. Mas a maternidade e também a paternidade tem essa força bonita de nos lembrar do essencial.

Por isso, hoje, o meu convite é esse:

Se você é mãe, se você é pai, permita-se mergulhar nesse oceano.

Porque a maternidade não é um rio. Ela não é um mar. Ela é um oceano. Um oceano de emoções, de descobertas, de desafios, de transformações e também de amor. Um oceano profundo, às vezes agitado, às vezes silencioso, mas sempre capaz de nos revelar algo novo.

Permita-se sentir, aprender, amadurecer e também se surpreender com a pessoa que você está se tornando no meio do caminho.

Porque existem vivências que o mundo inteiro não consegue reproduzir. Você pode conhecer muitos lugares, viver muitas histórias, atravessar muitas fases mas há algo na maternidade e na paternidade que é único. Algo que só pode ser compreendido por quem se permite entrar nesse mistério com o coração aberto.

Porque eu acredito, de todo o coração, que nesse mergulho você também pode encontrar uma versão mais bonita, mais inteira e mais feliz de si mesmo.

Por Geovana Constantino