
Perder-se também é o caminho
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Ontem, retornando ao trabalho depois de uma pausa de sete meses, vivi uma experiência que me fez refletir profundamente.
Esses sete meses foram um tempo de reencontro comigo mesma. Um período em que precisei encarar de frente grande parte das minhas sombras, mas também pude reconhecer a minha luz, enxergar potenciais que talvez eu ainda não conhecesse e fortalecer aspectos de mim que já existiam, mas que precisavam florescer.
No caminho de volta ao trabalho, passando pelo metrô, encontrei uma pequena exposição com frases e referências à Clarice Lispector. Entre elas, uma me atravessou de um jeito muito especial:
“Perder-se também é o caminho.”
Fiquei pensando no quanto passamos a vida tentando controlar tudo. Queremos planejar, racionalizar, prever cada detalhe, antecipar cada problema e encontrar respostas antes mesmo que as perguntas apareçam. E, embora exista sabedoria em se preparar, existe também um desgaste enorme em querer controlar aquilo que ainda nem aconteceu.
Foi então que comecei a pensar na beleza de se permitir perder.
Mas não estou falando de um perder-se irresponsável, inconsequente ou que nos afaste dos nossos valores. Não é sobre abandonar quem somos ou agir sem direção. É sobre aquele perder-se que nos leva à reflexão, à transformação e ao encontro de novos caminhos.
Às vezes estamos caminhando por uma trilha com destino certo. Temos um mapa, um plano e acreditamos saber exatamente onde vamos chegar. Mas, em algum momento, nos perdemos. E é justamente nesse instante que encontramos uma trilha que não estava desenhada. Descobrimos uma cachoeira escondida, contemplamos uma paisagem que jamais imaginaríamos existir e percebemos que aquele desvio nos presenteou com algo muito maior do que o destino inicial.
É esse perder-se que me encanta.
O perder-se que abre espaço para uma nova versão de nós mesmos. O perder-se que amplia os horizontes e nos apresenta possibilidades que jamais teríamos conhecido se insistíssemos em seguir apenas aquilo que havíamos planejado.
Como é libertador não endurecer a ponto de bloquear todas as surpresas que a vida deseja nos entregar.
Existem acontecimentos que chegam como verdadeiros presentes de Deus, do universo, da própria vida. Mas também existem desencontros que, embora dolorosos, cumprem um papel fundamental na nossa caminhada. Nem sempre compreendemos no momento, mas cada encontro e cada desencontro carregam um convite ao crescimento.
No fim, tudo depende da forma como escolhemos olhar para o que nos acontece.
Perder-se também é o caminho porque nos convida a confiar. A entender que talvez a vida esteja nos levando para um lugar ainda melhor do que aquele que imaginávamos.
Às vezes nos apegamos tanto ao objetivo final que deixamos de apreciar a beleza da travessia. Queremos apenas chegar ao destino, quando, na verdade, a maior riqueza está no caminho: nas curvas, nos imprevistos, nas mudanças de rota, nas pausas e em tudo aquilo que nos transforma enquanto seguimos.
Ontem, voltando ao trabalho, entendi que nem tudo é fixo. Nem tudo é imutável.
E graças a Deus por isso.
Estamos em constante mudança, em constante evolução. A vida nos oferece infinitas possibilidades todos os dias. E talvez a maior delas seja justamente descobrir que, muitas vezes, o caminho mais bonito é aquele que jamais planejamos percorrer.
Por Geovana Constantino