
Saber de mim
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Quero começar essa reflexão não com a autoridade de quem domina o assunto,
mas como alguém que também está no caminho.
Alguém que vive, percebe, erra… e tenta fazer diferente.
Existe um tipo de sensação que, por muito tempo, pode passar despercebida:
a culpa por não fazer pelo outro.
Ela aparece de forma sutil.
Nas pequenas escolhas, nos momentos simples, nas decisões do dia a dia.
E, quando se percebe, ela já está influenciando muito mais do que deveria.
É quando alguém pede algo e, mesmo sem vontade, existe um impulso de aceitar.
Ou quando não se aceita, mas a culpa vem depois, como se houvesse algo errado nisso.
Aos poucos, isso pode gerar um afastamento de si.
Não por falta de capacidade de escolher,
mas por começar a acreditar que talvez o outro saiba mais, que talvez seja melhor ceder.
E isso não acontece de forma brusca.
Vai acontecendo aos poucos.
Em decisões pequenas.
Em situações quase imperceptíveis.
Até que, em algum momento, surge um questionamento:
em quantas vezes foi escolha…
e em quantas vezes foi apenas adaptação?
Talvez você também já tenha sentido isso.
Aquela dúvida depois de dizer “sim” quando queria dizer “não”.
Ou a sensação de que é mais fácil deixar o outro decidir.
Existe também uma confusão comum nesse processo:
acreditar que cuidar é o mesmo que se responsabilizar emocionalmente pelo outro.
E, a partir disso, surge uma tendência de se colocar em segundo plano
enquanto, silenciosamente, nasce a expectativa de que alguém faça o contrário.
Que alguém perceba.
Que alguém antecipe.
Que alguém coloque em primeiro lugar.
Mas nem sempre isso acontece.
E quando não acontece, pode vir a frustração.
A sensação de não ser vista, de não ser considerada.
Com o tempo, algo importante começa a se tornar mais claro:
não é apenas sobre o outro.
É também sobre o quanto cada pessoa tem conseguido se colocar no próprio lugar.
Por isso, o autoconhecimento se torna essencial.
Se observar, se escutar, perceber padrões.
Identificar quando certos comportamentos se repetem, mesmo que ainda aconteçam algumas vezes.
Porque o processo não é sobre nunca mais errar,
mas sobre começar a perceber mais rápido… e agir de forma mais consciente.
E isso não significa fazer apenas o que se quer.
Existe uma diferença importante entre se respeitar
e cair em um movimento de teimosia ou egoísmo.
Nem sempre escolher o outro é se anular.
E nem sempre escolher a si é egoísmo.
O ponto está no lugar de onde a escolha vem.
Consciência muda tudo.
Outro aspecto importante é não acumular.
Quando algo incomoda, atravessa ou desrespeita, é importante comunicar.
De forma clara, simples e direta.
Sem esperar que o outro adivinhe.
Sem deixar para quando já não é mais possível sustentar.
Porque limites não se constroem na explosão
se constroem na constância.
E, com o tempo, uma outra percepção também se faz necessária:
observar o ambiente.
Se existe comunicação, clareza e tentativa de posicionamento…
e ainda assim não há respeito, talvez não seja mais sobre ajustar a forma.
Talvez seja sobre avaliar onde se está.
E, quando necessário, ter a sensibilidade de se afastar de espaços que não permitem crescimento.
Porque permanecer onde é preciso se diminuir para caber
também é uma forma de se abandonar.
No fim, não se trata de ir de um extremo ao outro.
Não é sobre deixar de se anular para passar a fazer apenas o que se quer.
É sobre construir um equilíbrio.
Um lugar onde seja possível se considerar,
sem desconsiderar o outro.
Se respeitar,
sem deixar de se relacionar.
E talvez, se isso fizer sentido para você também,
esse seja apenas o começo:
um movimento mais consciente de aprender a se escutar,
se posicionar…
e, aos poucos, não se perder de si.
Tem um trecho de Flávia Wenceslau, na música “Saber de Mim”, que traduz muito desse processo.
Quando ela diz:
“preciso saber de mim, porque ainda, de novo, me entreguei assim,
ao vento incerto de outra emoção, dizendo sim, querendo dizer não…”
e também:
“por tanta coisa já me fiz passar, por tanto frio também já chorei…”
parece que ela nomeia exatamente esse lugar de quem, por muitas vezes, se deixou de lado, mesmo sem perceber.
E em outro momento, ela traz algo ainda mais delicado:
“meu silêncio fala tanto, me revela inteira pra quem sabe ver…”
Mas nem todo mundo sabe ver.
E talvez seja isso.
Não sobre já ter encontrado todas as respostas
mas sobre, aos poucos, parar de se perder de si
enquanto tenta encontrá-las.
Por Geovana Constantino