Ser alicerce também cansa

Ser alicerce também cansa

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É duro quando a gente gostaria de ajudar alguém,
mesmo vendo que essa pessoa está tentando, de alguma forma, ser ajudada…
mas, ainda assim, ela não consegue.

Não porque não queira.
Mas porque, naquele momento, ela não tem força suficiente
para sair da situação em que está.

É como um processo de comodismo…
um tipo de flagelo interno,
onde a pessoa se cobra demais e se pune demais.

E não adianta.

Pode ser filósofo, teólogo, psicólogo, psiquiatra…
pode ter tudo isso dentro de casa, ao redor —
ainda assim, o poder de influência sobre o outro não garante nada.

Mesmo quando existem recursos.
Mesmo quando existe amor.
Mesmo quando existe intenção.

A verdade é que ninguém muda ninguém.

A pessoa só consegue se ressignificar sozinha.
Melhorar… é um movimento interno.

E ver alguém que você gosta principalmente alguém próximo
sofrendo dentro de uma situação assim,
é muito difícil.

Porque você oferece caminhos, oferece ferramentas…
não para mudar a vida dela,
mas para ajudar a sair daquele momento de escuridão.

E, mesmo assim, às vezes ela não sai.

E isso dói.

Dói ver alguém se degladiando consigo mesmo
sem conseguir atravessar.

Ainda mais no mundo em que vivemos hoje.

Somos constantemente bombardeados por informações
que ativam comparações, inseguranças, ansiedade…

A gente vive, sim, uma sociedade mais adoecida.

E muitas dessas dores vêm desse meio
social, tecnológico…
e também da insegurança no trabalho, na vida, no futuro.

As pessoas estão tão condicionadas a um modelo de vida
acordar, trabalhar, cuidar, repetir
que fica difícil enxergar outras possibilidades.

Mudar de cidade.
Mudar de vida.
Se permitir criar.

Parece distante.

E, mesmo quando alguém tenta melhorar…
nem sempre consegue sustentar.

Um dia consegue.
No outro, já está mais frágil.

E tudo recomeça.

E aí eu volto ao ponto inicial:
ver alguém nessa vulnerabilidade
e perceber que, mesmo com ferramentas, você não consegue ajudar.

Isso é quase torturante
para quem vê…
e, claro, para quem vive.

Porque a gente quer resolver.
Mas nem sempre é sobre resolver.

É sobre ressignificar.
Tratar.
Curar.

E essa cura…
só a própria pessoa pode fazer.

Então lidar com isso exige muito.

Muita paciência.
Muita coragem para permanecer.

Principalmente quando a pessoa já nem sabe mais quem é,
quando se perdeu dentro de tantas ideias, tantas ilusões.

E mesmo quando ela volta para o próprio eixo…
é preciso força para quando ela sair de novo.

Porque pode acontecer.

E não é fácil ocupar esse lugar.

Não é fácil ser esse alicerce.
Não é fácil ser o ponto de apoio,
o lugar onde o outro encontra descanso.

Não é fácil oferecer colo
quando você também precisa de colo.

Não é fácil sustentar o outro
quando você também está em processo de cura.

Mas, ainda assim…

Para alguns de nós, existe um chamado nesse lugar.

O servir.

Não como escravidão.
Mas como expressão.

Para mim, esse é o meu lugar de paz.
Meu lugar de abrigo.
É onde eu me sinto inteira.

Servir, sem me perder.

Então, se você se identifica com isso…

Se você também ocupa esse lugar na vida de alguém…

Eu só quero te lembrar:

Que bom que você consegue ser a sua própria cura.
Que bom que você consegue se sustentar.
Que bom que você consegue se ressignificar.

Porque foi assim que você se tornou quem é.

E isso basta.

Em um mundo que busca tanto fora,
ser alguém que olha para dentro
é raro.

E necessário.

Então aceite esse lugar que você ocupa.

Não como peso…
mas como direção.

Você não está aqui para salvar ninguém.

Mas, talvez, esteja aqui para mostrar
que é possível se encontrar.

Por Geovana Constantino