
Trevas e luz também são graça
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Eu aprendi, ao longo da vida ou talvez tenham me ensinado, que sentimentos como raiva, estresse, ansiedade, inveja… eram sentimentos tão negativos que, só de senti-los, já nos tornávamos pessoas ruins.
Como se existisse algo de errado em nós.
Como se, dependendo do nível desse sentimento, houvesse algo carregado… até associado a algo ruim, como se existisse uma energia negativa, algo externo.
E eu me lembro, na infância e em vários momentos da minha vida, de me sentir desconexa de mim quando esses sentimentos apareciam.
Sentia raiva de mim por sentir.
Como se eu fosse o problema.
Às vezes, quando vinha uma ansiedade muito grande e não havia entendimento sobre aquilo, acabava sendo projetado no outro também.
E depois vinha a culpa.
A sensação era de estranhamento.
De ser diferente.
E vinha o julgamento… como se os outros não sentissem daquela forma.
E muitas vezes houve repreensão por sentir.
Como se sentir fosse fraqueza.
Como se fosse falta de equilíbrio.
Como se não fosse normal.
Então, por muito tempo, ficou a ideia de que o “normal” do ser humano era estar em plena positividade, em pleno equilíbrio, em plena consciência.
E qualquer oscilação… já era vista como algo errado.
Como alguém complicado.
Como alguém que não estava no seu juízo.
E quantas vezes isso também foi reproduzido com o outro?
Quantas vezes veio o pensamento ou a fala de que alguém estava fora do seu juízo…
quando, no fundo, era exatamente assim que existia um sentir por dentro.
E hoje, ainda aprendendo, ainda engatinhando nessa nova consciência…
começa a surgir um novo entendimento: esses sentimentos, tanto os que chamamos de positivos quanto os negativos, são avisos.
São recados internos.
São inerentes ao ser humano.
E senti-los não significa ser uma pessoa ruim, estranha, desconexa ou repulsiva.
Significa estar vivendo.
Estar nessa experiência humana.
E então… por que surgem?
Porque fazem parte do sistema humano.
E toda vez que um sentimento é reprimido…
é como se dissesse:
“Eu não gosto de você.”
E então ele volta mais forte.
Não como inimigo…
mas como algo que precisa ser visto.
Já não faz sentido acreditar que existem dois lados brigando dentro, um bom e um mau.
Esses sentimentos não são inimigos.
São convites.
Convites, muitas vezes sutis, outras vezes intensos…
para olhar para dentro,
para acolher,
para trazer luz ao que precisa de atenção.
Eles não são tão maus quanto foi aprendido.
E não se trata de estar o tempo todo em plenitude.
Não se trata de viver em constante positividade.
Nessa experiência, oscilar faz parte.
E sentir algo considerado “negativo” não define quem se é.
São apenas avisos… de que algo pede cuidado, olhar, ajuste.
E é curioso…
porque existe a lembrança de uma música da infância, por volta dos nove, dez anos, que dizia:
“Indo e vindo, trevas e luz… tudo é graça, Deus nos conduz.”
E hoje isso ressoa quase como um mantra.
Porque fala dessa integração.
De que até aquilo que é chamado de trevas… também é graça.
Não no sentido de romantizar,
mas no sentido de compreender que não existe uma separação tão rígida.
O que é chamado de escuro… muitas vezes é apenas ausência de luz.
E talvez o ponto seja esse:
não é eliminar o escuro,
é levar luz até ele.
Porque aquilo que é visto como ruim…
muitas vezes também é um bem.
De alguma forma, tudo coopera.
E não se trata de religiosidade,
mas de integração.
De acolher os sentimentos, sejam eles quais forem.
Entender sua causa, sua origem, de onde vêm.
E acolher, amar… e transformar.
Levar luz ao que está escuro.
E dentro dessa dualidade que existe nessa experiência de vida…
existe também um convite ao acolhimento.
Ao acolhimento desse lado dual.
Porque o intuito não é dizer que sentir é ruim.
Não é.
Talvez a questão esteja no tempo em que se permanece nesses sentimentos.
Porque, como toda atividade, a vida também exige aprendizado.
E quanto mais tempo se permanece em uma mesma “matéria” sem compreender…
mais ela se repete.
É como na escola.
Repete-se, revisita-se, tenta-se novamente…
até aprender.
E só então vem o avanço.
Essa analogia também se aplica à vida.
A fases.
A sentimentos.
Enquanto não há aprendizado…
há repetição.
E o que é aprender?
Não é esquecer.
É ressignificar.
Dar um novo sentido para aquilo que aflige, que consome, que prende por tanto tempo naquele estado.
E o “passar de série” é isso:
é quando a lição é compreendida.
Quando o motivo daquela fase difícil começa a fazer sentido…
e se reconhece que houve aprendizado.
Que houve crescimento.
E quando existe aceitação, ainda que em construção, há avanço.
Mas, enquanto não há…
permanece-se.
Na mesma série.
Várias vezes.
Até aprender.
E seguir
Por Geovana Constantino